24 de jul. de 2026

YES - Aurora - 2026

 A julgar pela arte de capa e pelo conteúdo visual do álbum, Aurora já se impõe como uma obra que pretende dialogar diretamente com a tradição clássica do YES, ao mesmo tempo em que busca projetar a banda para um novo horizonte criativo.

A icônica identidade visual de Roger Dean volta mais uma vez a ser protagonista, com paisagens fantásticas, formas orgânicas, cores etéreas e a aurora boreal dominando o cenário, criam uma atmosfera contemplativa e quase espiritual, remetendo imediatamente aos grandes clássicos da década de 1970.

Mais do que uma capa, trata-se de um convite para uma viagem musical.

Poucas bandas conseguem atravessar quase seis décadas de história mantendo viva a capacidade de despertar expectativa a cada novo lançamento.

Em Aurora, o 24º álbum de estúdio do YES, Steve Howe, Geoff Downes, Jon Davison, Billy Sherwood e Jay Schellen demonstram que ainda existe espaço para criar música progressiva relevante sem recorrer apenas à nostalgia.

Segundo o próprio Steve Howe, a proposta nunca foi reproduzir o passado, mas preservar o espírito do YES enquanto a música segue em frente.

Logo na faixa-título, a banda estabelece o clima do álbum, com uma introdução delicada evolui para uma construção grandiosa, enriquecida pela participação da Orquestra Sinfônica Nacional Tcheca, criando uma sonoridade cinematográfica que faz justiça ao nome Aurora.

O resultado é majestoso, lembrando que o YES continua dominando a arte de combinar peso, delicadeza e sofisticação em uma mesma composição.

Ao longo do disco percebe-se um equilíbrio interessante entre composições relativamente concisas e momentos tipicamente progressivos.

"Turnaround Situation" apresenta melodias envolventes e um refrão marcante, enquanto "Love Lies Dreaming" explora uma faceta mais lírica e contemplativa.

O ponto alto para os apreciadores do progressivo clássico certamente será a faixa "Countermovement", suíte dividida em movimentos que evidencia o refinamento instrumental do grupo e reafirma que o YES continua confortável em estruturas musicais complexas.


Steve Howe permanece sendo o grande arquiteto sonoro do álbum, e seu trabalho de guitarras continua elegante, econômico quando necessário e brilhante nos momentos de maior intensidade.

Geoff Downes colore as músicas com sintetizadores e texturas que evocam diferentes fases da banda, enquanto Billy Sherwood e Jay Schellen oferecem uma base sólida, precisa e dinâmica.

Jon Davison, por sua vez, entrega talvez uma de suas interpretações mais maduras desde que assumiu os vocais do grupo, cantando com personalidade própria, sem cair na armadilha de simplesmente imitar Jon Anderson.

Visualmente, a arte reforça toda essa proposta, pois a paisagem fantástica iluminada pela aurora boreal simboliza renascimento, esperança e continuidade, que são conceitos que dialogam perfeitamente com o momento vivido pela banda.

A presença das árvores, da água e das formações rochosas típicas do universo de Roger Dean transmite a sensação de que o ouvinte está retornando a um lugar familiar, mas agora sob uma nova luz, que são um dos principais méritos de Aurora, que foi evitar a armadilha do excesso.

Embora preserve a riqueza harmônica característica do YES, o álbum aposta em canções mais objetivas, sem renunciar à complexidade.

Essa combinação torna o álbum acessível para novos ouvintes e, ao mesmo tempo, suficientemente elaborado para satisfazer os fãs históricos da banda, assim como eu.

Naturalmente, como acontece com praticamente todos os lançamentos recentes do YES, haverá quem prefira a fase clássica dos anos 1970 e veja o álbum como mais contido e, realmente não poderia deixar de ser, por razões óbvias, ele é mais contido. 


Uma das razões, é a atual formação, que mesmo indo muito bem, executando cirurgicamente todas as peças, fazendo um trabalho digno dos maiores cirurgiões, ainda fica muito distante dos antigos membros, que notoriamente são/eram um ponto fora da curva da normalidade.

Pelo que andei pesquisando, parte da crítica destacou exatamente essa divisão de opiniões: alguns o consideram o trabalho mais consistente da atual formação, enquanto outros sentem falta de uma ousadia maior.

Ainda assim, há um consenso de que a qualidade da execução, dos arranjos e da produção permanece em alto nível.

Aurora não tenta competir com obras monumentais como FragileClose to the Edge, Relayer ou Going for the One, o que seria um suicídio.

Seu objetivo é outro: mostrar que o YES ainda possui inspiração suficiente para produzir música elegante, emocional e artisticamente relevante. 


É um álbum que olha para o passado com respeito, mas mantém os olhos voltados para o horizonte exatamente como sugere sua belíssima capa.

Mais do que um novo capítulo na extensa discografia do YES, Aurora representa uma celebração da longevidade criativa de uma das maiores instituições do rock progressivo mundial.

É um trabalho que confirma que, mesmo após tantos anos, a chama criativa da banda continua iluminando novos caminhos.

YES:
Steve Howe,
Geoff Downes,
Jon Davison,
Billy Sherwood,
Jay Schellen

Tracks:
01 Aurora (faixa épica de abertura)
02 Turnaround Situation
03 Love Lies Dreaming
04 Countermovement (peça central dividida em capítulos)
05 Ariadne
06 All Hands on Deck
07 Outside the Box
08 Emotional Intelligence
09 Jambustin' (faixa bônus)
10 Watching the River Roll (faixa bônus)

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