27 de ago. de 2026

Various Artists - The Krautrock & Progressive Box Set - 2016



Mais do que uma reunião de gravações, The Krautrock & Progressive Box Set funciona como um amplo retrato de uma época em que o rock parecia disposto a desafiar todos os seus próprios limites. 

Distribuída por seis CDs, a coletânea aproxima músicos britânicos e alemães que, embora tenham seguido caminhos diferentes, compartilhavam a mesma inquietação artística: transformar o rock em um território aberto à experimentação, à improvisação e à imaginação.

O título pode sugerir uma concentração exclusiva no krautrock, mas o alcance do box é consideravelmente maior. 

Boa parte de seu conteúdo percorre diferentes vertentes do progressivo britânico, reunindo figuras ligadas ao Genesis, King Crimson, Yes, Atomic Rooster, Van der Graaf Generator, Gong, Hawkwind e à fértil cena de Canterbury. 

Steve Hackett, Anthony Phillips, Phil Collins, Robert Wyatt, Rick Wakeman, Carl Palmer, Steve Howe, Hugh Hopper, Richard Sinclair, Daevid Allen e Ginger Baker aparecem ao lado de bandas como Audience, Cressida, Warhorse, Third Ear Band, Slapp Happy e Arthur Brown’s Kingdom Come.

Essa reunião permite observar como muitos desses artistas ajudaram a expandir o vocabulário do rock. 

Alguns partiram da música clássica e das construções sinfônicas; outros incorporaram jazz, psicodelia, folk, música eletrônica e improvisação livre. 

O resultado é um painel bastante diverso, no qual a sofisticação instrumental convive com a irreverência, o lirismo e uma permanente vontade de descobrir novas formas de expressão.

Quando a coletânea se volta mais diretamente para a Alemanha, sua personalidade torna-se ainda mais singular. Birth Control, Atlantis, Annexus Quam, Bröselmaschine, Hölderlin, Embryo, Mythos e Wallenstein representam diferentes faces de uma geração que recusou simplesmente reproduzir o rock anglo-americano. 

Cada uma dessas bandas procurou construir uma linguagem própria, misturando longas passagens instrumentais, ritmos hipnóticos, eletrônica embrionária, jazz, elementos orientais e uma forte sensação de liberdade coletiva.

Há também personagens cuja presença ajuda a compreender o lado mais profundo e quase ritualístico do krautrock. Sergius Golowin, Walter Wegmüller, The Cosmic Jokers e Anima pertencem a uma zona em que música, poesia, misticismo e experimentação sonora se confundem. 

São trabalhos que não obedecem às estruturas tradicionais da canção e convidam o ouvinte a entrar em ambientes sonoros, em vez de simplesmente acompanhar composições convencionais.

Nesse contexto, colocar nomes consagrados ao lado de grupos menos conhecidos é uma das maiores virtudes do box. A familiaridade proporcionada por artistas como Hackett, Wakeman, Wyatt, Hawkwind e Van der Graaf Generator abre caminho para descobertas como Walpurgis, Emtidi, Second Hand, Chillum, Bodast e Bröselmaschine. 


A coletânea não estabelece uma hierarquia entre eles: apresenta todos como partes de uma mesma história de ousadia e transformação.

Naturalmente, não se trata de uma narrativa definitiva sobre o rock progressivo ou sobre o krautrock. As duas cenas foram vastas demais para caberem em apenas seis discos. 

Ainda assim, a seleção possui enorme valor por revelar os diálogos existentes entre músicos que, em países e contextos distintos, estavam tentando libertar o rock de suas fórmulas mais previsíveis.

Ouvidas em conjunto, essas obras ganham um significado maior.

Elas documentam um período em que o estúdio se tornou instrumento, a improvisação passou a orientar
caminhos inteiros e o álbum deixou de ser apenas uma coleção de músicas para se transformar em experiência artística. 

Mais do que preservar gravações importantes, The Krautrock & Progressive Box Set reúne diferentes maneiras de imaginar o futuro — muitas das quais continuam surpreendentemente vivas.

É uma coletânea para ser explorada sem pressa. 

Não apenas como uma viagem nostálgica, mas como testemunho de uma geração que acreditava que a música ainda podia atravessar fronteiras, provocar estranhamento e criar mundos inteiramente novos.







12 de ago. de 2026

MARILLION - Recital Of The Script - 1983



Existem apresentações que apenas registram uma turnê e outras que capturam o instante em que uma banda deixa de ser promessa para se tornar algo maior. Recital of the Script pertence à segunda categoria.

Gravado no Hammersmith Odeon, em Londres, nos dias 17 e 18 de abril de 1983, o espetáculo apresenta um Marillion ainda jovem, mas já consciente da força de sua música. A banda promovia o álbum de estreia, Script for a Jester’s Tear, lançado poucas semanas antes, e encerrava sua turnê britânica cercada por uma atmosfera de conquista.

Desde a abertura com “Script for a Jester’s Tear”, percebe-se que não estamos diante de um concerto convencional. 

Com maquiagem carregada, gestos teatrais e presença magnética, Fish transforma cada composição em uma pequena peça dramática. Ele não apenas canta: interpreta personagens marcados pela solidão, dependência, desilusão e inadequação social.

Musicalmente, o grupo demonstra notável segurança. Steve Rothery constrói solos econômicos e profundamente melódicos; Mark Kelly cria paisagens majestosas nos teclados; Pete Trewavas imprime movimento e personalidade ao baixo; e Mick Pointer conduz as músicas com a energia direta e impetuosa característica daquela primeira formação.

“Garden Party” ganha vida com a interpretação sarcástica de Fish, transformando sua crítica à arrogância social britânica em uma divertida provocação. 

Em seguida, “The Web” mergulha o teatro em uma atmosfera sombria e introspectiva, enquanto “Chelsea Monday” apresenta um dos momentos mais delicados do concerto, conduzido pela guitarra comovente de Rothery.

“He Knows You Know” traz uma tensão quase física ao abordar o ciclo destrutivo da dependência química. 

Fish muda a voz, o olhar e os movimentos, fazendo a canção parecer uma cena inquietante representada diante do público.

O ponto mais impactante surge com “Forgotten Sons”. Inspirada pelo conflito na Irlanda do Norte, a composição transforma o palco em um angustiante cenário de guerra. 

A banda não glorifica soldados ou batalhas; questiona aqueles que enviam jovens para morrer em nome de interesses políticos. Décadas depois, sua mensagem permanece dolorosamente atual.

Outro grande momento é “Grendel”, épico de quase vinte minutos inspirado no romance de John Gardner, que revisita a lenda de Beowulf pelo ponto de vista do monstro. Apesar das conhecidas comparações com o Genesis dos anos 1970, a faixa já revela a personalidade dramática que faria do Marillion uma das maiores referências do rock progressivo daquela década.

Ao final, “Market Square Heroes” transforma o Hammersmith Odeon em uma grande celebração. A distância entre palco e plateia praticamente desaparece, deixando a impressão de que todos participam daquele momento decisivo na história da banda.

Algumas curiosidades dos bastidores:

A apresentação de 18 de abril acabou se tornando o último concerto de Mick Pointer com o Marillion. Pouco depois, o baterista e membro fundador deixaria o grupo, iniciando um período de mudanças até a chegada definitiva de Ian Mosley, em 1984.


O espetáculo também teve uma trajetória curiosa. A edição original em VHS, lançada em outubro de 1983, continha apenas seis músicas. “The Web” e “Grendel” apareceram posteriormente em The Video E.P., e somente a edição em DVD, lançada em 2003, reuniu o material de maneira mais completa.

A gravação integral em áudio permaneceu guardada durante mais de 25 anos. Em junho de 2009, o concerto finalmente chegou ao CD duplo, incluindo “Three Boats Down from the Candy” e “Charting the Single”, ausentes nas antigas edições em vídeo.

A capa, integrada ao universo visual criado por Mark Wilkinson, resume perfeitamente o espírito do registro. 

O bobo da corte atravessa a entrada do teatro como se deixasse o mundo comum para assumir seu lugar no palco. 

Aquele personagem solitário, antes confinado ao quarto de Script for a Jester’s Tear, finalmente encontrava uma plateia disposta a escutar suas histórias.

Recital of the Script talvez não mostre o Marillion em seu momento de maior perfeição técnica, mas oferece algo ainda mais emocionante: uma banda descobrindo diante dos nossos olhos o tamanho que poderia alcançar.

Há juventude, ambição, imperfeições e uma enorme vontade de conquistar seu espaço, coisa que acabou acontecendo. 

Mais do que um simples registro histórico, este espetáculo preserva o momento em que o bobo da corte abriu as portas do teatro e descobriu que, do outro lado, já não estava sozinho.

Marillion
Fish
Mark Kelly
Pete Trewavas
Steve Rothery
Mick Pointer

Tracklisting
D 1
Script for a Jester's Tear
Garden Party
Three Boats Down from the Candy
The Web
Charting the Single
Chelsea Monday

D 2
He Knows You Know
Forgotten Sons
Market Square Heroes
Grendel








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