26 de set. de 2026

RICK WAKEMAN — Return to the Red Planet - 2026


Há algo simpático na ideia de Rick Wakeman fazer as malas para Marte mais uma vez. A capa de Return to the Red Planet, com seu foguete, o astronauta e a paisagem alaranjada, lembra aquelas ilustrações de ficção científica que faziam a gente imaginar o espaço antes de saber muita coisa sobre ele. 

É uma imagem que convida a parar, olhar os detalhes e entrar na história. Para um disco de rock progressivo, já é um belo começo.

Com lançamento marcado para 16 de outubro de 2026, pela Madfish Music, o trabalho retoma o universo de The Red Planet, de 2020. 

Segundo Wakeman, novas imagens e descobertas sobre Marte despertaram a vontade de voltar ao tema. Esse ponto torna o projeto interessante: existe uma curiosidade concreta por trás da viagem, uma vontade de transformar o que ele aprende sobre o planeta em música.

Os nove títulos ajudam a desenhar esse percurso. “The Jezero Crater”, “Noctis Labyrinthus” e “The Epochs of Mars” sugerem um álbum pensado como uma exploração, com lugares e dimensões de tempo diferentes. Gosto dessa proposta porque ela oferece ao ouvinte uma história para acompanhar, mas também deixa espaço para imaginar suas próprias paisagens. Resta ouvir como essas ideias se sustentam nas composições — nomes sugestivos criam expectativa, mas é a música que precisa dar vida ao cenário.

O detalhe que mais me chama a atenção, porém, está bem longe da superfície marciana: a decisão de gravar com a banda reunida. Lee Pomeroy, Dave Colquhoun, Adam Falkner e Mollie Marriott participam do trabalho com o English Rock Ensemble. Em um projeto associado a um tecladista tão reconhecível, interessa perceber quanto espaço haverá para a personalidade desses músicos e para a conversa entre eles. 
A gravação coletiva, realizada no Decoy Studios, dá uma boa razão para esperar esse encontro.

“Bowie’s Vision” acrescenta uma dimensão afetiva à proposta. A homenagem a David Bowie carrega uma ligação real: Wakeman tocou piano em “Life on Mars?”. Voltar a esse imaginário agora também significa revisitar uma parte da própria vida. Antes mesmo de qualquer julgamento sobre a faixa, esse vínculo já lhe dá um peso especial. No meio de crateras, desertos e eras geológicas, aparece a lembrança de alguém com quem se fez música.

É essa combinação que torna Return to the Red Planet promissor: a escala grandiosa do assunto e as relações humanas envolvidas em sua criação. Naturalmente, uma continuação traz a dúvida sobre o que ainda pode acrescentar ao primeiro trabalho. A resposta dependerá de melodias que permaneçam na memória, de arranjos que justifiquem seus caminhos e de uma banda capaz de fazer a aventura acontecer.

Por enquanto, a expectativa é boa. A capa desperta aquele prazer antigo de descobrir um disco, ler seus títulos e tentar adivinhar o que existe lá dentro. Wakeman escolheu voltar a Marte; a vontade, deste lado, é colocar os fones e descobrir o que o fez querer retornar.

Em respeito ao artista, o link com o audio do álbum será incluido nesta postagem após seu lançamento oficial em 16/10/2026.

PS: Gostei demais das músicas, Wakeman acertou em cheio nos temas, viagem garantida.

Track List:
01 The Jezero Crater — i. Shenandoah; ii. Hogwallow Flats Pt. 1; iii. The Yori Pass; iv. Hogwallow Flats Pt. 2
02 Bowie’s Vision
03 Noctis Labyrinthus
04 Noachis Terra (Land of Noah)
05 Witch Hazel Hill
06 St. Pauls Bay
07 Martian Dust Devils
08 Medusae Fossae
09 The Epochs of Mars — i. Noachian; ii. Hesperian; iii. Amazonian








8 de set. de 2026

GENESIS – Live in Rio - 1977




Quase meio século depois, esta gravação ainda me conduz ao Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, em maio de 1977. O som captado da transmissão das rádios Eldo Pop FM e Mundial AM, conserva as marcas do tempo, mas também guarda algo que nenhuma remasterização seria capaz de reproduzir: a emoção de uma noite que eu tive o privilégio de viver. 
Naquele palco estava o Genesis em uma de suas formações mais extraordinárias, trazendo ao Brasil a grandiosidade da turnê de Wind & Wuthering e escrevendo, diante de nossos olhos, uma página definitiva da história do rock progressivo.
O grupo desembarcava no país vivendo um momento decisivo de sua trajetória. Phil Collins já havia assumido os vocais principais, mas o Genesis ainda conservava a sofisticação instrumental, as longas construções sinfônicas e a atmosfera teatral que marcaram sua fase mais progressiva. No palco estavam Tony Banks, Mike Rutherford, Steve Hackett e Phil Collins, acompanhados pelo extraordinário Chester Thompson na bateria e percussão.
Era também uma formação que não voltaria a se repetir. Aquela seria a última turnê de Steve Hackett com o Genesis, tornando os concertos brasileiros ainda mais valiosos historicamente. Pouco tempo depois, a banda se transformaria em um trio e, gradualmente, buscaria caminhos musicais mais diretos. 
Naquele momento, entretanto, ainda havia espaço para mudanças inesperadas de andamento, extensas passagens instrumentais e paisagens sonoras capazes de transportar o público para muito além das arquibancadas do ginásio.
Desde os primeiros instantes, percebe-se um Genesis seguro e tecnicamente impressionante. A voz de Phil Collins já possuía personalidade própria, sem abandonar completamente a dramaticidade exigida pelo repertório dos tempos de Peter Gabriel. 
Além de cantar, Collins demonstrava uma presença comunicativa e espontânea, estabelecendo com a plateia brasileira uma proximidade que contrastava com a complexidade quase solene da música.
Tony Banks, cercado por seus teclados, era o grande arquiteto das atmosferas do espetáculo. 
Seus acordes de órgão, piano elétrico e sintetizadores preenchiam o Maracanãzinho com uma sonoridade majestosa. 
Mike Rutherford sustentava a base com enorme precisão, alternando entre baixo e guitarra, enquanto Steve Hackett acrescentava aquele toque delicado, misterioso e profundamente emotivo que sempre distinguiu sua passagem pelo grupo.
A presença de Chester Thompson também merece destaque. Sua interação com Phil Collins, especialmente nos momentos de maior intensidade rítmica, dava ao Genesis uma força impressionante. Os dois bateristas construíam verdadeiros diálogos percussivos, fazendo com que a música crescesse até alcançar proporções quase cinematográficas.
O repertório reunia diferentes capítulos da história do grupo. Obras recentes como “Squonk”, “One for the Vine”, “Eleventh Earl of Mar”, “Inside and Out” e a belíssima sequência “…In That Quiet Earth” e “Afterglow” dividiam espaço com clássicos já consagrados, entre eles “Firth of Fifth”, “The Carpet Crawlers”, “I Know What I Like” e a monumental “Supper’s Ready”. 
O encerramento com “Dance on a Volcano” e “Los Endos” mostrava uma banda em plena potência, unindo precisão, emoção e uma energia poucas vezes alcançada no rock progressivo.
A gravação preservada neste bootleg, realizada a partir da transmissão radiofônica das rádios Eldo Pop FM e Mundial AM, naturalmente carrega as limitações técnicas de sua época. 
Ainda assim, é justamente essa característica que lhe confere uma atmosfera tão especial. 
Não estamos diante da limpeza sonora de uma produção oficial, mas de um documento vivo: um som que atravessou o ar, chegou aos aparelhos de rádio e acabou preservado por admiradores que compreenderam a importância daquela apresentação.
As pequenas oscilações, os ruídos e a textura analógica não diminuem sua grandeza. Pelo contrário, aproximam-nos do acontecimento. 
É possível perceber a reação do público, a acústica ampla do Maracanãzinho e o impacto provocado pela iluminação intensa, pelos teclados de Banks, pelas guitarras de Hackett e pelo encontro das duas baterias.
Para mim, ouvir este registro significa retornar a um tempo em que assistir a uma banda internacional desse porte no Brasil era algo raro, quase inacreditável. 
Estar presente naquele ginásio foi testemunhar um dos maiores nomes do rock progressivo justamente quando uma de suas eras mais importantes se aproximava do fim.
Genesis – Live in Rio 1977 é muito mais do que um bootleg. É uma cápsula do tempo, um fragmento preservado de uma noite inesquecível e o testemunho sonoro do momento em que o Genesis trouxe ao Rio de Janeiro toda a beleza, a complexidade e a emoção de sua música. 
Para quem esteve lá, como eu, cada nova audição representa um reencontro, não apenas com a banda, mas também com uma parte preciosa da própria vida.
Este bootleg não é inédito aqui no blog — acredito que esta seja a terceira vez que o publico. Entretanto, com o passar dos anos, os sentimentos e as percepções em relação àquele concerto também se transformam. 
Curiosamente, embora a distância no tempo seja cada vez maior, sinto-me ainda mais próximo daqueles dois dias, 14 e 15 de maio, simplesmente inesquecíveis. Só não lembro o horário, pois foram duas apresentações as 18 e 21h em cada dia. 

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7 de set. de 2026

PINK FLOYD – Hollywood Bowl - 1972



Há registros ao vivo que documentam uma apresentação; outros capturam o exato momento em que uma obra-prima ainda está sendo construída. Este concerto do Pink Floyd, realizado no Hollywood Bowl, em Los Angeles, em 22 de setembro de 1972, pertence claramente à segunda categoria. Diante de uma plateia que ainda não conhecia o futuro reservado àquelas composições, Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason apresentaram praticamente toda a suíte que, cerca de seis meses depois, se transformaria em The Dark Side of the Moon.

Uma pequena correção histórica se faz necessária, pois o álbum não foi lançado em 1974, mas em março de 1973. A associação com 1974 provavelmente vem da célebre apresentação de Wembley daquele ano, posteriormente lançada oficialmente. No Hollywood Bowl, porém, o público ouviu antecipadamente todas as peças que formariam o disco, ainda com arranjos em desenvolvimento e algumas diferenças bastante reveladoras. O próprio Pink Floyd confirma que o material foi parcialmente desenvolvido nos palcos antes de sua gravação definitiva em Abbey Road.

Desde os primeiros efeitos de Speak to Me e a entrada contemplativa de Breathe, percebe-se que a arquitetura conceitual do trabalho já estava estabelecida. A sequência flui como uma longa reflexão sobre o tempo, a ansiedade, a morte, o dinheiro e a fragilidade da mente humana. Entretanto, o que se ouve aqui não é simplesmente uma reprodução antecipada do álbum: é uma versão mais crua, orgânica, visceral e, em alguns momentos, quase experimental daquela música.

A diferença mais marcante surge em On the Run, ainda apresentada como The Travel Sequence. Em lugar da pulsação eletrônica vertiginosa que seria criada em estúdio, encontramos uma passagem instrumental conduzida por guitarra, baixo e teclados, muito mais próxima do Pink Floyd psicodélico do início da década. The Great Gig in the Sky, anteriormente chamada The Mortality Sequence, também aparece sem a histórica interpretação vocal de Clare Torry. A composição repousa sobre o piano de Richard Wright e assume uma atmosfera mais sombria e meditativa, como se ainda procurasse a forma emocional definitiva que alcançaria no disco.

Outras músicas já se encontram surpreendentemente próximas das versões conhecidas. Time possui sua dramaticidade essencial, sustentada pelos tambores de Nick Mason, pelos teclados de Wright e pela voz expressiva de Gilmour. Money já exibe sua métrica incomum e seu caráter irônico, enquanto Us and Them se espalha pelo anfiteatro com solenidade e melancolia. Em Any Colour You Like, então conhecida como Scat, o grupo abre espaço para a improvisação, fazendo dos sintetizadores e da guitarra uma espécie de conversa cósmica.

O encerramento da suíte, com Brain Damage e Eclipse, é particularmente emocionante. Ainda sem toda a grandiosidade vocal e os detalhes de produção que seriam acrescentados em estúdio, as duas faixas revelam a força da concepção de Roger Waters. Ao chegar ao último acorde, fica evidente que o Pink Floyd já havia encontrado algo maior do que uma simples coleção de canções: havia criado uma experiência contínua, capaz de transformar inquietações humanas universais em música.

Depois dessa impressionante visão do futuro, o concerto retorna ao repertório já conhecido. One of These Days avança com peso e agressividade; Careful with That Axe, Eugene constrói seu habitual clima de ameaça; e Echoes, estendida e profundamente atmosférica, reafirma a extraordinária capacidade do quarteto de criar paisagens sonoras. Relembra também de Set The Controls For The Heart Of The Sun e, A Saucerful of Secrets completa a viagem, recuperando o lado mais abstrato e imprevisível da banda.

A gravação possui as limitações naturais de um registro de época, mas isso pouco diminui sua importância. Na verdade, certa aspereza sonora contribui para a sensação de estarmos diante de um documento secreto, preservando uma noite em que milhares de pessoas ouviram o futuro sem ainda saber disso. O repertório confirmado da apresentação reúne a suíte completa de The Dark Side of the Moon, seguida por clássicos da fase psicodélica e espacial do grupo.


Hollywood Bowl 1972
é, portanto, muito mais do que mais um registro ao vivo do Pink Floyd. É o momento de uma banda atravessando uma fronteira artística: deixando para trás parte de sua identidade psicodélica e encontrando a linguagem madura, conceitual e profundamente humana que logo a transformaria em um dos maiores nomes da história do rock. Poucos meses depois, aquelas músicas conquistariam o mundo. Nesta noite, contudo, elas ainda respiravam livremente no palco — imperfeitas, ousadas e fascinantemente vivas.


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3 de set. de 2026

YES - Richfield Coliseum - 1978




Registrado em 19 de setembro de 1978, no Richfield Coliseum, em Ohio, e originalmente transmitido pelo rádio, este concerto captura o Yes em uma fase particularmente interessante de sua trajetória.
A banda celebrava dez anos de existência e apresentava ao público norte-americano parte do repertório de Tormato, álbum que seria lançado nos Estados Unidos poucos dias depois. No palco estava uma de suas formações mais emblemáticas: Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire, Rick Wakeman e Alan White.

Mais do que um simples documento de época, Richfield Coliseum 1978 revela cinco músicos de personalidades muito diferentes trabalhando como uma única força criativa.

Mesmo com a complexidade das composições, o Yes nunca soa frio ou excessivamente calculado. Existe energia, espontaneidade e, sobretudo, uma impressionante sensação de movimento. A abertura com “Siberian Khatru” estabelece imediatamente o nível da apresentação.

A guitarra de Steve Howe alterna precisão e agressividade, enquanto o baixo de Chris Squire ocupa um espaço muito maior do que o tradicionalmente reservado ao instrumento. Seu Rickenbacker não apenas sustenta a música: responde à guitarra, impulsiona as mudanças rítmicas e frequentemente assume uma função quase solista.
Em “Heart of the Sunrise”, esse diálogo instrumental alcança um de seus momentos mais intensos. Alan White conduz as transições com força e segurança, enquanto Rick Wakeman preenche a paisagem sonora com camadas de teclados que ampliam a dimensão sinfônica da composição.
Sobre essa arquitetura complexa surge a voz cristalina de Jon Anderson, oferecendo leveza e espiritualidade a uma música construída sobre contrastes, pausas e explosões instrumentais. As então recentes “Future Times/Rejoice”, “Circus of Heaven”, “Don’t Kill the Whale”, “Madrigal” e “On the Silent Wings of Freedom” mostram uma banda que, apesar de já possuir um repertório consagrado, ainda se recusava a viver apenas do passado.

Algumas dessas composições dividiriam opiniões no álbum Tormato, mas, no ambiente do palco, ganham maior vigor, liberdade e presença. “On the Silent Wings of Freedom”, especialmente, permite que a seção rítmica formada por Squire e White exiba todo o seu peso.

Outro ponto marcante é o grande medley que percorre diferentes períodos da história do grupo, reunindo trechos de “Time and a Word”, “Long Distance Runaround”, “Survival”, “The Fish”, “Perpetual Change” e “Soon”.

Não se trata apenas de uma sequência de lembranças para agradar aos fãs, mas de uma verdadeira retrospectiva musical. Em poucos minutos, o Yes revisita suas próprias transformações e demonstra como, desde os primeiros discos, vinha ampliando os limites estruturais e sonoros do rock. Há também espaço para a delicadeza acústica de Steve Howe em “Clap”, para o virtuosismo teatral dos teclados de Rick Wakeman e para a monumentalidade de “Awaken”.

Esta última surge como o grande momento espiritual do concerto: uma composição que cresce lentamente, atravessa passagens contemplativas e alcança proporções quase litúrgicas. Já “I’ve Seen All Good People” e “Roundabout” encerram a apresentação de maneira vibrante, aproximando a sofisticação progressiva da resposta imediata de uma grande plateia. A própria concepção da turnê reforçava essa busca por uma experiência envolvente.

O grupo se apresentava em um palco circular e rotativo montado no centro das arenas, permitindo que diferentes setores do público acompanhassem os músicos de perto. Era uma estrutura ambiciosa, compatível com uma banda que sempre tratou seus concertos como extensões visuais e sonoras de seus discos.

Historicamente, o Yes ocupa uma posição fundamental no desenvolvimento do rock progressivo mundial. Ao lado de nomes como Genesis, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer e Pink Floyd, o grupo ajudou a transformar o álbum de rock em um espaço aberto para suítes extensas, influências clássicas, jazzísticas e folclóricas, mudanças de andamento e sofisticadas harmonias vocais.

Sua importância, porém, não se limita ao virtuosismo, pois o Yes demonstrou que músicas longas e desafiadoras também poderiam conquistar grandes plateias. Décadas depois, essa contribuição seria reconhecida com a entrada da banda no Rock and Roll Hall of Fame, em 2017.

A natureza radiofônica da gravação conserva certa aspereza e não oferece o acabamento de um álbum ao vivo cuidadosamente produzido. Em compensação, transmite uma sensação de proximidade rara, como se o ouvinte estivesse diante do palco naquela noite.

Pequenas imperfeições tornam o registro ainda mais humano e ajudam a revelar a verdadeira força do Yes, que não é apenas executar peças complexas, mas fazê-las respirar diante do público.
Richfield Coliseum 1978 é, portanto, o retrato de uma banda madura, ousada e ainda inquieta.

Um Yes capaz de olhar para sua própria história sem abandonar o desejo de avançar e de transformar técnica, imaginação e emoção em uma experiência que permanece viva muito além de seu tempo, sendo a fotografia do momento que a banda estava vivendo.






27 de ago. de 2026

Various Artists - The Krautrock & Progressive Box Set - 2016



Mais do que uma reunião de gravações, The Krautrock & Progressive Box Set funciona como um amplo retrato de uma época em que o rock parecia disposto a desafiar todos os seus próprios limites. 

Distribuída por seis CDs, a coletânea aproxima músicos britânicos e alemães que, embora tenham seguido caminhos diferentes, compartilhavam a mesma inquietação artística: transformar o rock em um território aberto à experimentação, à improvisação e à imaginação.

O título pode sugerir uma concentração exclusiva no krautrock, mas o alcance do box é consideravelmente maior. 

Boa parte de seu conteúdo percorre diferentes vertentes do progressivo britânico, reunindo figuras ligadas ao Genesis, King Crimson, Yes, Atomic Rooster, Van der Graaf Generator, Gong, Hawkwind e à fértil cena de Canterbury. 

Steve Hackett, Anthony Phillips, Phil Collins, Robert Wyatt, Rick Wakeman, Carl Palmer, Steve Howe, Hugh Hopper, Richard Sinclair, Daevid Allen e Ginger Baker aparecem ao lado de bandas como Audience, Cressida, Warhorse, Third Ear Band, Slapp Happy e Arthur Brown’s Kingdom Come.

Essa reunião permite observar como muitos desses artistas ajudaram a expandir o vocabulário do rock. 

Alguns partiram da música clássica e das construções sinfônicas; outros incorporaram jazz, psicodelia, folk, música eletrônica e improvisação livre. 

O resultado é um painel bastante diverso, no qual a sofisticação instrumental convive com a irreverência, o lirismo e uma permanente vontade de descobrir novas formas de expressão.

Quando a coletânea se volta mais diretamente para a Alemanha, sua personalidade torna-se ainda mais singular. Birth Control, Atlantis, Annexus Quam, Bröselmaschine, Hölderlin, Embryo, Mythos e Wallenstein representam diferentes faces de uma geração que recusou simplesmente reproduzir o rock anglo-americano. 

Cada uma dessas bandas procurou construir uma linguagem própria, misturando longas passagens instrumentais, ritmos hipnóticos, eletrônica embrionária, jazz, elementos orientais e uma forte sensação de liberdade coletiva.

Há também personagens cuja presença ajuda a compreender o lado mais profundo e quase ritualístico do krautrock. Sergius Golowin, Walter Wegmüller, The Cosmic Jokers e Anima pertencem a uma zona em que música, poesia, misticismo e experimentação sonora se confundem. 

São trabalhos que não obedecem às estruturas tradicionais da canção e convidam o ouvinte a entrar em ambientes sonoros, em vez de simplesmente acompanhar composições convencionais.

Nesse contexto, colocar nomes consagrados ao lado de grupos menos conhecidos é uma das maiores virtudes do box. A familiaridade proporcionada por artistas como Hackett, Wakeman, Wyatt, Hawkwind e Van der Graaf Generator abre caminho para descobertas como Walpurgis, Emtidi, Second Hand, Chillum, Bodast e Bröselmaschine. 


A coletânea não estabelece uma hierarquia entre eles: apresenta todos como partes de uma mesma história de ousadia e transformação.

Naturalmente, não se trata de uma narrativa definitiva sobre o rock progressivo ou sobre o krautrock. As duas cenas foram vastas demais para caberem em apenas seis discos. 

Ainda assim, a seleção possui enorme valor por revelar os diálogos existentes entre músicos que, em países e contextos distintos, estavam tentando libertar o rock de suas fórmulas mais previsíveis.

Ouvidas em conjunto, essas obras ganham um significado maior.

Elas documentam um período em que o estúdio se tornou instrumento, a improvisação passou a orientar
caminhos inteiros e o álbum deixou de ser apenas uma coleção de músicas para se transformar em experiência artística. 

Mais do que preservar gravações importantes, The Krautrock & Progressive Box Set reúne diferentes maneiras de imaginar o futuro — muitas das quais continuam surpreendentemente vivas.

É uma coletânea para ser explorada sem pressa. 

Não apenas como uma viagem nostálgica, mas como testemunho de uma geração que acreditava que a música ainda podia atravessar fronteiras, provocar estranhamento e criar mundos inteiramente novos.







12 de ago. de 2026

MARILLION - Recital Of The Script - 1983



Existem apresentações que apenas registram uma turnê e outras que capturam o instante em que uma banda deixa de ser promessa para se tornar algo maior. Recital of the Script pertence à segunda categoria.

Gravado no Hammersmith Odeon, em Londres, nos dias 17 e 18 de abril de 1983, o espetáculo apresenta um Marillion ainda jovem, mas já consciente da força de sua música. A banda promovia o álbum de estreia, Script for a Jester’s Tear, lançado poucas semanas antes, e encerrava sua turnê britânica cercada por uma atmosfera de conquista.

Desde a abertura com “Script for a Jester’s Tear”, percebe-se que não estamos diante de um concerto convencional. 

Com maquiagem carregada, gestos teatrais e presença magnética, Fish transforma cada composição em uma pequena peça dramática. Ele não apenas canta: interpreta personagens marcados pela solidão, dependência, desilusão e inadequação social.

Musicalmente, o grupo demonstra notável segurança. Steve Rothery constrói solos econômicos e profundamente melódicos; Mark Kelly cria paisagens majestosas nos teclados; Pete Trewavas imprime movimento e personalidade ao baixo; e Mick Pointer conduz as músicas com a energia direta e impetuosa característica daquela primeira formação.

“Garden Party” ganha vida com a interpretação sarcástica de Fish, transformando sua crítica à arrogância social britânica em uma divertida provocação. 

Em seguida, “The Web” mergulha o teatro em uma atmosfera sombria e introspectiva, enquanto “Chelsea Monday” apresenta um dos momentos mais delicados do concerto, conduzido pela guitarra comovente de Rothery.

“He Knows You Know” traz uma tensão quase física ao abordar o ciclo destrutivo da dependência química. 

Fish muda a voz, o olhar e os movimentos, fazendo a canção parecer uma cena inquietante representada diante do público.

O ponto mais impactante surge com “Forgotten Sons”. Inspirada pelo conflito na Irlanda do Norte, a composição transforma o palco em um angustiante cenário de guerra. 

A banda não glorifica soldados ou batalhas; questiona aqueles que enviam jovens para morrer em nome de interesses políticos. Décadas depois, sua mensagem permanece dolorosamente atual.

Outro grande momento é “Grendel”, épico de quase vinte minutos inspirado no romance de John Gardner, que revisita a lenda de Beowulf pelo ponto de vista do monstro. Apesar das conhecidas comparações com o Genesis dos anos 1970, a faixa já revela a personalidade dramática que faria do Marillion uma das maiores referências do rock progressivo daquela década.

Ao final, “Market Square Heroes” transforma o Hammersmith Odeon em uma grande celebração. A distância entre palco e plateia praticamente desaparece, deixando a impressão de que todos participam daquele momento decisivo na história da banda.

Algumas curiosidades dos bastidores:

A apresentação de 18 de abril acabou se tornando o último concerto de Mick Pointer com o Marillion. Pouco depois, o baterista e membro fundador deixaria o grupo, iniciando um período de mudanças até a chegada definitiva de Ian Mosley, em 1984.


O espetáculo também teve uma trajetória curiosa. A edição original em VHS, lançada em outubro de 1983, continha apenas seis músicas. “The Web” e “Grendel” apareceram posteriormente em The Video E.P., e somente a edição em DVD, lançada em 2003, reuniu o material de maneira mais completa.

A gravação integral em áudio permaneceu guardada durante mais de 25 anos. Em junho de 2009, o concerto finalmente chegou ao CD duplo, incluindo “Three Boats Down from the Candy” e “Charting the Single”, ausentes nas antigas edições em vídeo.

A capa, integrada ao universo visual criado por Mark Wilkinson, resume perfeitamente o espírito do registro. 

O bobo da corte atravessa a entrada do teatro como se deixasse o mundo comum para assumir seu lugar no palco. 

Aquele personagem solitário, antes confinado ao quarto de Script for a Jester’s Tear, finalmente encontrava uma plateia disposta a escutar suas histórias.

Recital of the Script talvez não mostre o Marillion em seu momento de maior perfeição técnica, mas oferece algo ainda mais emocionante: uma banda descobrindo diante dos nossos olhos o tamanho que poderia alcançar.

Há juventude, ambição, imperfeições e uma enorme vontade de conquistar seu espaço, coisa que acabou acontecendo. 

Mais do que um simples registro histórico, este espetáculo preserva o momento em que o bobo da corte abriu as portas do teatro e descobriu que, do outro lado, já não estava sozinho.

Marillion
Fish
Mark Kelly
Pete Trewavas
Steve Rothery
Mick Pointer

Tracklisting
D 1
Script for a Jester's Tear
Garden Party
Three Boats Down from the Candy
The Web
Charting the Single
Chelsea Monday

D 2
He Knows You Know
Forgotten Sons
Market Square Heroes
Grendel








24 de jul. de 2026

YES - Aurora - 2026

 A julgar pela arte de capa e pelo conteúdo visual do álbum, Aurora já se impõe como uma obra que pretende dialogar diretamente com a tradição clássica do YES, ao mesmo tempo em que busca projetar a banda para um novo horizonte criativo.

A icônica identidade visual de Roger Dean volta mais uma vez a ser protagonista, com paisagens fantásticas, formas orgânicas, cores etéreas e a aurora boreal dominando o cenário, criam uma atmosfera contemplativa e quase espiritual, remetendo imediatamente aos grandes clássicos da década de 1970.

Mais do que uma capa, trata-se de um convite para uma viagem musical.

Poucas bandas conseguem atravessar quase seis décadas de história mantendo viva a capacidade de despertar expectativa a cada novo lançamento.

Em Aurora, o 24º álbum de estúdio do YES, Steve Howe, Geoff Downes, Jon Davison, Billy Sherwood e Jay Schellen demonstram que ainda existe espaço para criar música progressiva relevante sem recorrer apenas à nostalgia.

Segundo o próprio Steve Howe, a proposta nunca foi reproduzir o passado, mas preservar o espírito do YES enquanto a música segue em frente.

Logo na faixa-título, a banda estabelece o clima do álbum, com uma introdução delicada evolui para uma construção grandiosa, enriquecida pela participação da Orquestra Sinfônica Nacional Tcheca, criando uma sonoridade cinematográfica que faz justiça ao nome Aurora.

O resultado é majestoso, lembrando que o YES continua dominando a arte de combinar peso, delicadeza e sofisticação em uma mesma composição.

Ao longo do disco percebe-se um equilíbrio interessante entre composições relativamente concisas e momentos tipicamente progressivos.

"Turnaround Situation" apresenta melodias envolventes e um refrão marcante, enquanto "Love Lies Dreaming" explora uma faceta mais lírica e contemplativa.

O ponto alto para os apreciadores do progressivo clássico certamente será a faixa "Countermovement", suíte dividida em movimentos que evidencia o refinamento instrumental do grupo e reafirma que o YES continua confortável em estruturas musicais complexas.


Steve Howe permanece sendo o grande arquiteto sonoro do álbum, e seu trabalho de guitarras continua elegante, econômico quando necessário e brilhante nos momentos de maior intensidade.

Geoff Downes colore as músicas com sintetizadores e texturas que evocam diferentes fases da banda, enquanto Billy Sherwood e Jay Schellen oferecem uma base sólida, precisa e dinâmica.

Jon Davison, por sua vez, entrega talvez uma de suas interpretações mais maduras desde que assumiu os vocais do grupo, cantando com personalidade própria, sem cair na armadilha de simplesmente imitar Jon Anderson.

Visualmente, a arte reforça toda essa proposta, pois a paisagem fantástica iluminada pela aurora boreal simboliza renascimento, esperança e continuidade, que são conceitos que dialogam perfeitamente com o momento vivido pela banda.

A presença das árvores, da água e das formações rochosas típicas do universo de Roger Dean transmite a sensação de que o ouvinte está retornando a um lugar familiar, mas agora sob uma nova luz, que são um dos principais méritos de Aurora, que foi evitar a armadilha do excesso.

Embora preserve a riqueza harmônica característica do YES, o álbum aposta em canções mais objetivas, sem renunciar à complexidade.

Essa combinação torna o álbum acessível para novos ouvintes e, ao mesmo tempo, suficientemente elaborado para satisfazer os fãs históricos da banda, assim como eu.

Naturalmente, como acontece com praticamente todos os lançamentos recentes do YES, haverá quem prefira a fase clássica dos anos 1970 e veja o álbum como mais contido e, realmente não poderia deixar de ser, por razões óbvias, ele é mais contido. 


Uma das razões, é a atual formação, que mesmo indo muito bem, executando cirurgicamente todas as peças, fazendo um trabalho digno dos maiores cirurgiões, ainda fica muito distante dos antigos membros, que notoriamente são/eram um ponto fora da curva da normalidade.

Pelo que andei pesquisando, parte da crítica destacou exatamente essa divisão de opiniões: alguns o consideram o trabalho mais consistente da atual formação, enquanto outros sentem falta de uma ousadia maior.

Ainda assim, há um consenso de que a qualidade da execução, dos arranjos e da produção permanece em alto nível.

Aurora não tenta competir com obras monumentais como Fragile, Close to the Edge, Relayer ou Going for the One, o que seria um suicídio.

Seu objetivo é outro: mostrar que o YES ainda possui inspiração suficiente para produzir música elegante, emocional e artisticamente relevante. 


É um álbum que olha para o passado com respeito, mas mantém os olhos voltados para o horizonte exatamente como sugere sua belíssima capa.

Mais do que um novo capítulo na extensa discografia do YES, Aurora representa uma celebração da longevidade criativa de uma das maiores instituições do rock progressivo mundial.

É um trabalho que confirma que, mesmo após tantos anos, a chama criativa da banda continua iluminando novos caminhos.

YES:
Steve Howe,
Geoff Downes,
Jon Davison,
Billy Sherwood,
Jay Schellen

Tracks:
01 Aurora (faixa épica de abertura)
02 Turnaround Situation
03 Love Lies Dreaming
04 Countermovement (peça central dividida em capítulos)
05 Ariadne
06 All Hands on Deck
07 Outside the Box
08 Emotional Intelligence
09 Jambustin' (faixa bônus)
10 Watching the River Roll (faixa bônus)

16 de jul. de 2026

YES - Roosevelt Stadium, Jersey City, NJ, 17 June 1976



Há discos ao vivo que servem apenas para documentar uma turnê. Outros, porém, têm o poder de congelar um instante em que uma banda parece maior do que ela mesma. Live at Roosevelt Stadium, Jersey City, NJ, 17 June 1976 pertence a essa segunda categoria. 

Durante décadas, esse concerto circulou apenas como um dos bootlegs mais cultuados da história do rock progressivo. 

Agora, finalmente lançado de forma oficial, ele confirma tudo aquilo que os fãs diziam havia quase cinquenta anos: o Yes estava em um de seus momentos mais inspirados.

O show registra a lendária formação do Yes, com Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire, Patrick Moraz e Alan White, em plena "Solo Albums Tour". Depois do monumental Relayer (1974), cada integrante mergulhou em projetos individuais, e esse período de maturidade artística acabou refletindo diretamente nas apresentações ao vivo. Em vez de simplesmente reproduzir os clássicos, o grupo ampliava as músicas, incorporava novos arranjos e dava espaço para que cada músico exibisse sua personalidade.

Logo na abertura, "Apocalypse" e "Siberian Khatru" deixam claro que não se trata de uma performance comum. A precisão técnica impressiona, mas nunca soa mecânica. Chris Squire domina a base com seu baixo inconfundível, enquanto Steve Howe alterna agressividade e delicadeza com absoluta naturalidade. Alan White mantém toda a engrenagem funcionando com potência e elegância, e Patrick Moraz acrescenta uma textura jazzística que diferencia esta fase de qualquer outra da história do Yes.

O verdadeiro ponto alto chega com "Sound Chaser" e, principalmente, "The Gates of Delirium". A complexidade da suíte continua desafiadora quase cinquenta anos depois, mas a banda executa cada mudança de andamento com uma confiança impressionante. 

Há momentos em que parece haver improvisação; em outros, tudo soa matematicamente calculado. É justamente essa tensão entre liberdade e precisão que torna esta apresentação tão fascinante.

Os trechos dedicados aos trabalhos solo também funcionam muito melhor do que se poderia imaginar. Patrick Moraz apresenta uma amostra de The Story of I, Jon Anderson oferece um delicado fragmento de Olias of Sunhillow, enquanto Steve Howe emociona com a sempre elegante "Clap".

Com seu  vocal inconfundível, Jon Anderson mostra que é uma singularidade no mundo dorock, seja ele qual for.

Longe de quebrar o ritmo do espetáculo, esses momentos ajudam a compreender o enorme universo musical que cada integrante carregava naquele período.

Na segunda metade do concerto, "Ritual" transforma o estádio em uma verdadeira celebração coletiva. A composição, frequentemente considerada difícil para o público casual, ganha uma energia quase hipnótica diante da plateia. Em seguida, "Heart of the Sunrise" e "Roundabout" lembram por que o Yes se tornou uma das maiores bandas de palco dos anos 70: técnica impecável, mas sempre a serviço da emoção.

O encerramento com "I'm Down", clássico dos Beatles, é uma surpresa divertida. Depois de quase duas horas de música extremamente sofisticada, a banda simplesmente resolve se divertir. O resultado é espontâneo, descontraído e revela um lado do Yes que raramente aparecia em seus discos de estúdio.

Do ponto de vista sonoro, é importante lembrar que esta gravação nasceu de uma transmissão ao vivo da rádio WNEW-FM. Embora a remasterização oficial tenha recuperado o material com bastante cuidado, pequenas imperfeições permanecem. 

Em vez de prejudicar a experiência, elas reforçam a autenticidade do registro. O ouvinte sente que está realmente presente em Roosevelt Stadium, ouvindo uma das maiores bandas do planeta tocar sem qualquer rede de proteção.

Mais do que um simples lançamento de arquivo, Live at Roosevelt Stadium representa um documento histórico. Ele captura o Yes exatamente no ponto de equilíbrio entre a criatividade explosiva de Relayer e a maturidade técnica que definiria o restante da década. 

Para os admiradores do rock progressivo, trata-se de uma peça indispensável; para quem deseja
entender por que o Yes se tornou uma referência absoluta do gênero, talvez não exista porta de entrada mais convincente.

Poucos registros ao vivo conseguem transmitir tão bem a grandiosidade de uma banda em seu auge criativo. 

Este álbum não apenas faz justiça à fama do lendário bootleg, como também passa a ocupar, oficialmente, um lugar entre os melhores discos ao vivo da história do rock progressivo.


Band:
Jon Anderson, 
Steve Howe, 
Chris Squire, 
Patrick Moraz, 
Alan White

Tracks:
01 "Apocalypse" (Intro)
02 "Siberian Khatru"
03 "Sound Chaser"
04 "The Gates of Delirium"
05 "I've Seen All Good People"
06 "Long Distance Runaround"
07 Solo Spotlights: Excerpts from The Story of I and Olias of Sunhillow, alongside "Clap"
08 "Ritual"
09 "Heart of the Sunrise"
11 "Roundabout"
12 "I'm Down" (Beatles cover) 



31 de jan. de 2026

SOLARIS - "Solaris Archiv 3 - "Los Angeles 2026" -

 

Ano de lançamento: 2025

Genero: Rock Progressivo

Após um longo período de silêncio, o retorno se dá por meio de uma obra que, embora não inédita em termos de composição, revela-se fundamental para a compreensão histórica e estética da banda húngara Solaris. 

Solaris Archiv Vol. III: Los Angeles 2026 encerra a trilogia de lançamentos de arquivo do grupo e reafirma a relevância de sua produção no contexto do rock progressivo europeu dos anos 1980.

Diferentemente de um álbum de estúdio convencional, este lançamento apresenta-se como um bootleg oficial, reunindo demos de estúdio e registros ao vivo, alguns inéditos, outros já conhecidos por colecionadores. O material selecionado cobre um período significativo, de 1984 a 1990, que abrange desde os primeiros passos da banda até sua dissolução inicial, oferecendo ao ouvinte uma visão abrangente de sua evolução musical.

O eixo conceitual do álbum é a suíte “Los Angeles 2026”, aqui apresentada em uma versão demo rara e bastante distinta das interpretações mais conhecidas. Essa gravação evidencia o caráter experimental do grupo e sua disposição em trabalhar estruturas longas, narrativas musicais complexas e atmosferas cinematográficas, elementos que se tornariam marcas definitivas do Solaris.

Os volumes anteriores da série Solaris Archiv — es elsõ idõk e Noab,  já haviam demonstrado a consistência e a qualidade do material de arquivo da banda. Este terceiro capítulo não apenas mantém esse padrão como o aprofunda, reforçando a ideia de que mesmo registros considerados periféricos carregam alto valor artístico.

Do ponto de vista instrumental, o álbum confirma o elevado nível técnico de seus integrantes. As flautas de Kollár Attila desempenham papel central na construção das texturas melódicas, dialogando com os teclados sofisticados de Erdész Róbert e a guitarra expressiva de Cziván István, cuja atuação confere unidade e identidade ao som do grupo. Trata-se de uma formação em que o virtuosismo jamais se sobrepõe à coesão musical, mas atua sempre em favor da composição.

Há também interesse histórico em faixas como “The Last One”, executada apenas uma vez ao vivo em 1986, durante um concerto de despedida. Esse registro adquire valor documental, sobretudo quando se considera que o Solaris retornaria à cena musical em 1990 com o aclamado álbum 1900, reafirmando sua maturidade artística.

Em termos estilísticos, o Solaris se insere com propriedade na tradição do rock progressivo clássico, podendo ser comparado, sem exagero, a nomes como Genesis, Gentle Giant e Jethro Tull. No entanto, a banda preserva uma identidade própria, marcada por forte influência da música erudita e por uma abordagem melódica singular.

Solaris Archiv Vol. III: Los Angeles 2026 não é apenas um complemento para admiradores já familiarizados com a obra do grupo, mas também uma porta de entrada qualificada para novos ouvintes interessados em compreender a profundidade e a sofisticação do Solaris. Mais do que um registro histórico, o álbum reafirma a centralidade da música como elemento principal, dispensando excessos interpretativos e deixando que a obra fale por si.

Boa audição!    

Solaris:

Cziglán István – guitarra
Erdész Róbert – teclados
Gömör László - bateria
Kollár Attila – flauta
Pócs Tamás - baixo

Guests:

Kuklis Gergely – violino
Nyári László – violino
Benkő Gyula – viola
Sturcz András – violoncelo 


Tracks:

01. Los Angeles 2026 (demo from the 80’s)
02. Heart of the Snake (string quartet arrangements)
03. Wholesome Optimism
04. Jozsi Goes to Mátészalka (original concert demo)
05. Purple Mummy (cassette tape recording in the rehearsal room)
06. The Task (improvised melody)
07. The Last One (electronic music for pantomime)


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