3 de set. de 2026

YES - Richfield Coliseum - 1978




Registrado em 19 de setembro de 1978, no Richfield Coliseum, em Ohio, e originalmente transmitido pelo rádio, este concerto captura o Yes em uma fase particularmente interessante de sua trajetória.
A banda celebrava dez anos de existência e apresentava ao público norte-americano parte do repertório de Tormato, álbum que seria lançado nos Estados Unidos poucos dias depois. No palco estava uma de suas formações mais emblemáticas: Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire, Rick Wakeman e Alan White.

Mais do que um simples documento de época, Richfield Coliseum 1978 revela cinco músicos de personalidades muito diferentes trabalhando como uma única força criativa.

Mesmo com a complexidade das composições, o Yes nunca soa frio ou excessivamente calculado. Existe energia, espontaneidade e, sobretudo, uma impressionante sensação de movimento. A abertura com “Siberian Khatru” estabelece imediatamente o nível da apresentação.

A guitarra de Steve Howe alterna precisão e agressividade, enquanto o baixo de Chris Squire ocupa um espaço muito maior do que o tradicionalmente reservado ao instrumento. Seu Rickenbacker não apenas sustenta a música: responde à guitarra, impulsiona as mudanças rítmicas e frequentemente assume uma função quase solista.
Em “Heart of the Sunrise”, esse diálogo instrumental alcança um de seus momentos mais intensos. Alan White conduz as transições com força e segurança, enquanto Rick Wakeman preenche a paisagem sonora com camadas de teclados que ampliam a dimensão sinfônica da composição.
Sobre essa arquitetura complexa surge a voz cristalina de Jon Anderson, oferecendo leveza e espiritualidade a uma música construída sobre contrastes, pausas e explosões instrumentais. As então recentes “Future Times/Rejoice”, “Circus of Heaven”, “Don’t Kill the Whale”, “Madrigal” e “On the Silent Wings of Freedom” mostram uma banda que, apesar de já possuir um repertório consagrado, ainda se recusava a viver apenas do passado.

Algumas dessas composições dividiriam opiniões no álbum Tormato, mas, no ambiente do palco, ganham maior vigor, liberdade e presença. “On the Silent Wings of Freedom”, especialmente, permite que a seção rítmica formada por Squire e White exiba todo o seu peso.

Outro ponto marcante é o grande medley que percorre diferentes períodos da história do grupo, reunindo trechos de “Time and a Word”, “Long Distance Runaround”, “Survival”, “The Fish”, “Perpetual Change” e “Soon”.

Não se trata apenas de uma sequência de lembranças para agradar aos fãs, mas de uma verdadeira retrospectiva musical. Em poucos minutos, o Yes revisita suas próprias transformações e demonstra como, desde os primeiros discos, vinha ampliando os limites estruturais e sonoros do rock. Há também espaço para a delicadeza acústica de Steve Howe em “Clap”, para o virtuosismo teatral dos teclados de Rick Wakeman e para a monumentalidade de “Awaken”.

Esta última surge como o grande momento espiritual do concerto: uma composição que cresce lentamente, atravessa passagens contemplativas e alcança proporções quase litúrgicas. Já “I’ve Seen All Good People” e “Roundabout” encerram a apresentação de maneira vibrante, aproximando a sofisticação progressiva da resposta imediata de uma grande plateia. A própria concepção da turnê reforçava essa busca por uma experiência envolvente.

O grupo se apresentava em um palco circular e rotativo montado no centro das arenas, permitindo que diferentes setores do público acompanhassem os músicos de perto. Era uma estrutura ambiciosa, compatível com uma banda que sempre tratou seus concertos como extensões visuais e sonoras de seus discos.

Historicamente, o Yes ocupa uma posição fundamental no desenvolvimento do rock progressivo mundial. Ao lado de nomes como Genesis, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer e Pink Floyd, o grupo ajudou a transformar o álbum de rock em um espaço aberto para suítes extensas, influências clássicas, jazzísticas e folclóricas, mudanças de andamento e sofisticadas harmonias vocais.

Sua importância, porém, não se limita ao virtuosismo, pois o Yes demonstrou que músicas longas e desafiadoras também poderiam conquistar grandes plateias. Décadas depois, essa contribuição seria reconhecida com a entrada da banda no Rock and Roll Hall of Fame, em 2017.

A natureza radiofônica da gravação conserva certa aspereza e não oferece o acabamento de um álbum ao vivo cuidadosamente produzido. Em compensação, transmite uma sensação de proximidade rara, como se o ouvinte estivesse diante do palco naquela noite.

Pequenas imperfeições tornam o registro ainda mais humano e ajudam a revelar a verdadeira força do Yes, que não é apenas executar peças complexas, mas fazê-las respirar diante do público.
Richfield Coliseum 1978 é, portanto, o retrato de uma banda madura, ousada e ainda inquieta.

Um Yes capaz de olhar para sua própria história sem abandonar o desejo de avançar e de transformar técnica, imaginação e emoção em uma experiência que permanece viva muito além de seu tempo, sendo a fotografia do momento que a banda estava vivendo.






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