8 de set. de 2026

GENESIS – Live in Rio - 1977




Quase meio século depois, esta gravação ainda me conduz ao Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, em maio de 1977. O som captado da transmissão das rádios Eldo Pop FM e Mundial AM, conserva as marcas do tempo, mas também guarda algo que nenhuma remasterização seria capaz de reproduzir: a emoção de uma noite que eu tive o privilégio de viver. 
Naquele palco estava o Genesis em uma de suas formações mais extraordinárias, trazendo ao Brasil a grandiosidade da turnê de Wind & Wuthering e escrevendo, diante de nossos olhos, uma página definitiva da história do rock progressivo.
O grupo desembarcava no país vivendo um momento decisivo de sua trajetória. Phil Collins já havia assumido os vocais principais, mas o Genesis ainda conservava a sofisticação instrumental, as longas construções sinfônicas e a atmosfera teatral que marcaram sua fase mais progressiva. No palco estavam Tony Banks, Mike Rutherford, Steve Hackett e Phil Collins, acompanhados pelo extraordinário Chester Thompson na bateria e percussão.
Era também uma formação que não voltaria a se repetir. Aquela seria a última turnê de Steve Hackett com o Genesis, tornando os concertos brasileiros ainda mais valiosos historicamente. Pouco tempo depois, a banda se transformaria em um trio e, gradualmente, buscaria caminhos musicais mais diretos. 
Naquele momento, entretanto, ainda havia espaço para mudanças inesperadas de andamento, extensas passagens instrumentais e paisagens sonoras capazes de transportar o público para muito além das arquibancadas do ginásio.
Desde os primeiros instantes, percebe-se um Genesis seguro e tecnicamente impressionante. A voz de Phil Collins já possuía personalidade própria, sem abandonar completamente a dramaticidade exigida pelo repertório dos tempos de Peter Gabriel
Além de cantar, Collins demonstrava uma presença comunicativa e espontânea, estabelecendo com a plateia brasileira uma proximidade que contrastava com a complexidade quase solene da música.
Tony Banks, cercado por seus teclados, era o grande arquiteto das atmosferas do espetáculo. 
Seus acordes de órgão, piano elétrico e sintetizadores preenchiam o Maracanãzinho com uma sonoridade majestosa. 
Mike Rutherford sustentava a base com enorme precisão, alternando entre baixo e guitarra, enquanto Steve Hackett acrescentava aquele toque delicado, misterioso e profundamente emotivo que sempre distinguiu sua passagem pelo grupo.
A presença de Chester Thompson também merece destaque. Sua interação com Phil Collins, especialmente nos momentos de maior intensidade rítmica, dava ao Genesis uma força impressionante. Os dois bateristas construíam verdadeiros diálogos percussivos, fazendo com que a música crescesse até alcançar proporções quase cinematográficas.
O repertório reunia diferentes capítulos da história do grupo. Obras recentes como “Squonk”, “One for the Vine”, “Eleventh Earl of Mar”, “Inside and Out” e a belíssima sequência “…In That Quiet Earth” e “Afterglow” dividiam espaço com clássicos já consagrados, entre eles “Firth of Fifth”, “The Carpet Crawlers”, “I Know What I Like” e a monumental “Supper’s Ready”
O encerramento com “Dance on a Volcano” e “Los Endos” mostrava uma banda em plena potência, unindo precisão, emoção e uma energia poucas vezes alcançada no rock progressivo.
A gravação preservada neste bootleg, realizada a partir da transmissão radiofônica das rádios Eldo Pop FM e Mundial AM, naturalmente carrega as limitações técnicas de sua época. 
Ainda assim, é justamente essa característica que lhe confere uma atmosfera tão especial. 
Não estamos diante da limpeza sonora de uma produção oficial, mas de um documento vivo: um som que atravessou o ar, chegou aos aparelhos de rádio e acabou preservado por admiradores que compreenderam a importância daquela apresentação.
As pequenas oscilações, os ruídos e a textura analógica não diminuem sua grandeza. Pelo contrário, aproximam-nos do acontecimento. 
É possível perceber a reação do público, a acústica ampla do Maracanãzinho e o impacto provocado pela iluminação intensa, pelos teclados de Banks, pelas guitarras de Hackett e pelo encontro das duas baterias.
Para mim, ouvir este registro significa retornar a um tempo em que assistir a uma banda internacional desse porte no Brasil era algo raro, quase inacreditável. 
Estar presente naquele ginásio foi testemunhar um dos maiores nomes do rock progressivo justamente quando uma de suas eras mais importantes se aproximava do fim.
Genesis – Live in Rio 1977 é muito mais do que um bootleg. É uma cápsula do tempo, um fragmento preservado de uma noite inesquecível e o testemunho sonoro do momento em que o Genesis trouxe ao Rio de Janeiro toda a beleza, a complexidade e a emoção de sua música. 
Para quem esteve lá, como eu, cada nova audição representa um reencontro, não apenas com a banda, mas também com uma parte preciosa da própria vida.
Este bootleg não é inédito aqui no blog — acredito que esta seja a terceira vez que o publico. Entretanto, com o passar dos anos, os sentimentos e as percepções em relação àquele concerto também se transformam. 
Curiosamente, embora a distância no tempo seja cada vez maior, sinto-me ainda mais próximo daqueles dois dias, 14 e 15 de maio, simplesmente inesquecíveis. Só não lembro o horário, pois foram duas apresentações as 18 e 21h em cada dia. 

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